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Corrida por data centers avança, mas retorno depende da execução dos projetos

*Por Eliézer Mota, CEO da Genux Consult

A recente discussão em torno do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata) recolocou o tema dos data centers no centro da agenda tecnológica e econômica do país. O programa previa incentivos fiscais para atrair a instalação dessas estruturas no Brasil, mediante contrapartidas como investimento em inovação e uso de energia limpa, mas a medida provisória perdeu validade após aprovação na Câmara e não votação no Senado. Embora o debate tenha sido conduzido sob a ótica dos incentivos fiscais, o que está em jogo é mais amplo: o posicionamento do Brasil na corrida global por capacidade computacional em um momento em que cloud, dados e inteligência artificial redefinem cadeias produtivas e modelos de negócio.

Independentemente do desfecho legislativo, o movimento estrutural já está em curso. Estimativas indicam que o Brasil pode receber entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em investimentos em data centers nos próximos quatro anos, concentrando aproximadamente metade do mercado regional. Esse cenário não é apenas prospectivo. A AWS anunciou R$ 10,1 bilhões para expansão de suas operações até 2034, enquanto a Microsoft confirmou recentemente a inauguração de dois data centers de IA no estado de São Paulo, parte de um plano de R$ 14,7 bilhões anunciado em 2024. O país, portanto, já figura no mapa estratégico das grandes decisões globais de infraestrutura digital.

Esse contexto altera o patamar técnico disponível para as empresas que operam no Brasil. Data centers não são apenas instalações físicas; são a base sobre a qual rodam aplicações críticas, ambientes de cloud híbrida, workloads intensivos de inteligência artificial e sistemas que exigem baixa latência e alta disponibilidade. Com maior capacidade instalada localmente, ampliam-se as possibilidades arquiteturais, reduzem-se tempos de resposta e fortalecem-se estratégias de residência de dados, especialmente em setores regulados e sensíveis a requisitos de compliance.

No entanto, a expansão da infraestrutura não garante, por si só, vantagem competitiva. O mercado corporativo brasileiro já demonstra maturidade na adoção de nuvem — 77% das empresas utilizam cloud, sendo 61% com adoção plena, segundo pesquisa apresentada no ecossistema TOTVS. Ainda assim, quando se observa o uso de inteligência artificial, emerge um desalinhamento relevante: 50% das empresas afirmam utilizar IA, mas apenas 7% mensuram o retorno sobre investimento dessas iniciativas. Esse dado revela que o desafio atual não está mais no acesso à tecnologia, mas na capacidade de traduzir tecnologia em valor mensurável.

É nesse ponto que a discussão sobre data centers se conecta diretamente ao tema de retorno sobre investimento (ROI). A maior disponibilidade de capacidade computacional reduz barreiras técnicas, mas não substitui a necessidade de priorização estratégica. Migrar cargas de trabalho para a nuvem de forma indiscriminada ou ampliar ambientes de processamento sem critérios claros tende a gerar complexidade e custo, não necessariamente eficiência. “Cloud competitivo”, portanto, não significa migrar tudo, mas direcionar infraestrutura para casos de uso cujo impacto possa ser medido em ganho operacional, melhoria de decisão ou redução de risco.

Empresas que conseguem capturar valor nesse novo ciclo tratam arquitetura como elemento central da estratégia. Isso implica estruturar tecnologia como produto, com responsabilidades definidas e indicadores claros, aplicar práticas consistentes de FinOps para transformar custo variável em decisão gerencial e, sobretudo, organizar dados antes de escalar modelos de IA. Sem padronização mínima, governança aderente à LGPD e visibilidade sobre consumo e performance, a expansão da infraestrutura tende a ampliar ineficiências em vez de corrigi-las.

Ao mesmo tempo, o debate sobre o Redata evidencia que decisões de política pública influenciam o ambiente de investimento de longo prazo. Data centers são projetos estruturados para horizontes de 20 ou 30 anos, intensivos em capital e dependentes de previsibilidade regulatória e infraestrutura energética adequada. Nesse sentido, a discussão atual não diz respeito apenas a incentivos pontuais, mas à sinalização estratégica sobre o papel que o Brasil pretende desempenhar na economia digital.

O país já está inserido na agenda global de capacidade computacional, e a expansão de data centers amplia o acesso a recursos que, até poucos anos atrás, estavam concentrados em mercados específicos. A verdadeira diferenciação, entretanto, continuará sendo construída dentro das organizações. Infraestrutura habilita. Arquitetura orienta. Governança sustenta. E o retorno, em última instância, depende da capacidade de executar com método, priorização e disciplina.

* Eliézer Mota é CEO da Genux Consult. Atua há mais de 24 anos em análise de sistemas, programação e gestão de bancos de dados, com experiência no desenvolvimento de soluções escaláveis para o setor financeiro. Possui pós-graduação em Gestão Estratégica de Pessoas e Administração de Negócios pela Universidade Metodista e certificação em Corporate Financial Strategy pela University of Chicago. Também é conselheiro da ERN Negócios.


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