Logo
Imprimir esta página

Competência não tem gênero: o desafio da igualdade no trabalho

*Por Cris Kerr

Durante um treinamento com pessoas executivas, ouvi uma afirmação que ainda revela muito sobre nossas crenças mais profundas: “Mas os homens não são mais fortes do que as mulheres?”

Perguntei: “Você se refere à força física?”. A resposta veio sem hesitação: “Física e intelectual. Afinal, nós escolhemos as áreas mais difíceis.”

A sala ficou em silêncio. Não era provocação. Era convicção.

Antes de descartar essa fala como ultrapassada, vale um exercício simples — um enigma amplamente citado em estudos sobre viés inconsciente:

Pai e filho sofrem um grave acidente. O pai morre no local. O filho é levado ao hospital.

Ao chegar ao centro cirúrgico, a pessoa mais competente da equipe olha para o menino e diz: “Não posso operá-lo. Ele é meu filho.”

Quem é essa pessoa? Avô? Padrasto? Um segundo pai?

A maioria das pessoas projeta automaticamente uma figura masculina. Poucos respondem de imediato: é a mãe.

O ponto desconfortável para qualquer liderança é: o obstáculo não está na capacidade feminina — está na nossa lente.

Quando ouvimos “a pessoa mais competente da equipe”, nossa mente tende a projetar autoridade, genialidade técnica e poder decisório no masculino. Não porque avaliamos desempenho. Não porque analisamos dados. Mas porque fomos culturalmente treinados a associar liderança e excelência ao homem.

Se essa associação surge em um simples enigma, o que dizer das decisões reais nas organizações?

Quem consideramos naturalmente preparado para liderar áreas estratégicas? Quem recebe os projetos mais visíveis? Quem é percebido como tendo “postura executiva”? Quem precisa provar mais — e por quanto tempo?

O viés inconsciente não grita. Ele sussurra. E, justamente por isso, influencia promoções, sucessões e oportunidades críticas sem que percebamos.

Ao longo de mais de 18 anos de consultoria, ouvi repetidas vezes uma frase aparentemente neutra: “Se tiver uma mulher tão competente quanto um homem, eu contrato.”

Mas essa fala revela um viés estrutural: ela pressupõe que a competência masculina é o padrão e que a feminina precisa ser comparável para merecer espaço. Um viés sutil, mas profundamente enraizado.

Ele não surgiu no ambiente corporativo. É produto de séculos de cultura e história. O psicanalista Jorge Forbes, em seu artigo “Que vem e que passa”, relembra declarações históricas que naturalizaram a inferiorização feminina: Aristóteles: “A mulher é por natureza inferior ao homem; deve, pois, obedecer…”, Voltaire: “Uma mulher amavelmente estúpida é uma bênção do céu.”, Hegel: “Sua mente não é adequada às ciências mais elevadas.”, Oscar Wilde: “Todas as mulheres acabam sendo como suas mães: essa é a tragédia.”

Esses homens moldaram religião, filosofia, literatura e pensamento ocidental. Suas palavras atravessaram gerações e foram incorporadas, muitas vezes sem questionamento, à formação cultural de sociedades inteiras.

A consequência? Um modelo mental que associa autoridade, razão e inteligência ao masculino — e emoção, fragilidade e beleza ao feminino.

Não fomos nós que criamos séculos de pensamento que inferiorizaram mulheres. Mas somos responsáveis por decidir se continuaremos reproduzindo-os.

Quase todas as pessoas foram educadas em uma cultura que supervalorizou o masculino e diminuiu o feminino. Reconhecer isso não é culpa — é maturidade.

A verdadeira transformação começa quando deixamos de perguntar se mulheres são tão competentes quanto homens e passamos a questionar: Que talentos estamos desperdiçando por causa de um viés que nem sabíamos que existia? Quanto mais tempo vamos esperar para alcançar a equidade de gênero?

Neste 8 de março, enquanto celebramos o Dia Internacional da Mulher, a pergunta é: O que você está fazendo para reduzir a lacuna de gênero em sua organização? O que está fazendo pelas suas filhas, irmãs, sobrinhas, colaboradoras e esposas?

Porque competência não tem gênero — mas decisão, oportunidade e liderança, sim.

*Cris Kerr é CEO da CKZ Diversidade, consultoria especializada com 16 anos de atuação em DIEP - Diversidade, Inclusão, Equidade e Pertencimento, escritora do best seller "Viés Inconsciente" e “Cultura Organizacional Livre de Assédio”, professora da Fundação Dom Cabral, mestra em Sustentabilidade pela FGV.

Sobre a CKZ Diversidade

A CKZ Diversidade é 100% focada em Diversidade & Inclusão. Há mais de 18 anos conecta experiências, estimula o diálogo e desenvolve programas de valorização da diversidade. É formada por um time de pessoas apaixonadas por transformar os ambientes em espaços mais diversos e inclusivos. A empresa conta com uma Consultoria em Diversidade com treinamentos in company focados nas necessidades de cada corporações, além da única Formação Prática em Diversidade & Inclusão do Brasil, que terá sua 10ª edição em 2026, o Fórum Agentes da Transformação, que está na 4ª edição e é voltado para o engajamento de homens nas pautas de Diversidade e Inclusão, e o Super Fórum Diversidade & Inclusão, que acontece em outubro de 2026 e está na 15ª Edição e apresenta mais de 30 cases de empresas que vêm construindo ambientes mais diversos e inclusivos, tornando-as mais inovadoras e sustentáveis.

Sobre a Cris Kerr

CEO da CKZ Diversidade, TEDx speaker, professora da FGV - Fundação Getúlio Vagas, FDC - Fundação Dom Cabral e da PUC RS, mestra em Sustentabilidade pela FGV. Foi pioneira no tema DIEP com o lançamento em 2010 do maior Fórum de Diversidade & Inclusão do Brasil. Cris é especialista nos temas: cultura e liderança inclusiva, assédio, liderança transformadora, diversidade, inclusão, viés inconsciente e equidade de gênero. É autora do best-seller Viés Inconsciente e do livro Cultura Organizacional Livre de Assédio e co-autora de mais 5 livros.


Compartilhe:: Participe do GRUPO SEGS - PORTAL NACIONAL no FACEBOOK...:
 
https://www.facebook.com/groups/portalnacional/

<::::::::::::::::::::>
IMPORTANTE.: Voce pode replicar este artigo. desde que respeite a Autoria integralmente e a Fonte...  www.segs.com.br
<::::::::::::::::::::>
No Segs, sempre todos tem seu direito de resposta, basta nos contatar e sera atendido. -  Importante sobre Autoria ou Fonte..: - O Segs atua como intermediario na divulgacao de resumos de noticias (Clipping), atraves de materias, artigos, entrevistas e opinioes. - O conteudo aqui divulgado de forma gratuita, decorrem de informacoes advindas das fontes mencionadas, jamais cabera a responsabilidade pelo seu conteudo ao Segs, tudo que e divulgado e de exclusiva responsabilidade do autor e ou da fonte redatora. - "Acredito que a palavra existe para ser usada em favor do bem. E a inteligencia para nos permitir interpretar os fatos, sem paixao". (Autoria de Lucio Araujo da Cunha) - O Segs, jamais assumira responsabilidade pelo teor, exatidao ou veracidade do conteudo do material divulgado. pois trata-se de uma opiniao exclusiva do autor ou fonte mencionada. - Em caso de controversia, as partes elegem o Foro da Comarca de Santos-SP-Brasil, local oficial da empresa proprietaria do Segs e desde ja renunciam expressamente qualquer outro Foro, por mais privilegiado que seja. O Segs trata-se de uma Ferramenta automatizada e controlada por IP. - "Leia e use esta ferramenta, somente se concordar com todos os TERMOS E CONDICOES DE USO".
<::::::::::::::::::::>

Copyright Clipping ©2002-2026 - SEGS Portal Nacional de Seguros, Saúde, Veículos, Informática, Info, Ti, Educação, Eventos, Agronegócio, Economia, Turismo, Viagens, Vagas, Agro e Entretenimento. - Todos os direitos reservados.- www.SEGS.com.br - IMPORTANTE:: Antes de Usar o Segs, Leia Todos os Termos de Uso.
SEGS é compatível com Browsers Google Chrome, Firefox, Opera, Psafe, Safari, Edge, Internet Explorer 11 - (At: Não use Internet Explorer 10 ou anteriores, além de não ter segurança em seu PC, o SEGS é incompatível)
Por Maior Velocidade e Mais Segurança, ABRA - AQUI E ATUALIZE o seu NAVEGADOR(Browser) é Gratuíto