Afastamentos por burnout sobem 15,6% no Brasil e acendem alerta nas empresas
Relatório aponta mais de 546 mil benefícios concedidos em 2025; especialista alerta que o problema não está na quantidade de horas, mas na intensidade do trabalho
O Brasil registrou 546.254 concessões de benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais em 2025, segundo relatório do Ministério da Previdência Social publicado em janeiro de 2026. O número representa um crescimento de 15,66% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 472.328 concessões. Entre os principais motivos estão quadros de ansiedade, depressão e síndrome de burnout, consolidando os transtornos mentais como uma das principais causas de afastamento laboral no país.
Para o consultor de carreira e negócios da ESIC Internacional, Alexandre Weiler, o problema não está necessariamente na quantidade de horas trabalhadas, mas na intensidade da jornada contemporânea. “A digitalização ampliou a produtividade, mas também manteve profissionais permanentemente conectados. Notificações fora do expediente, reuniões sucessivas e metas cada vez mais agressivas apagaram os limites entre trabalho e descanso. Somada à pressão por desempenho e à cultura de alta responsabilidade individual, essa dinâmica mantém a mente em estado de alerta quase constante, um terreno fértil para o esgotamento”, afirma.
O debate sobre carga horária ganhou força internacionalmente. A Noruega se tornou símbolo de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, com jornadas médias reduzidas e discussões sobre a adoção da semana de quatro dias. O país é frequentemente citado como referência em bem-estar social, produtividade e confiança nas relações de trabalho. No entanto, casos de exaustão emocional e afastamentos por questões psicológicas também vêm crescendo.
O paradoxo evidencia que diminuir o tempo formal de trabalho não é solução automática quando a intensidade, a pressão por resultados e a hiperconectividade permanecem. “Reduzir horas, isoladamente, não resolve o problema se a cultura organizacional continuar baseada em alta intensidade e conectividade permanente”, explica Weiler.
No Brasil, o desafio é ainda mais complexo. Diferentemente da Noruega, o país convive com desigualdades estruturais, maior instabilidade econômica e uma rede de proteção social menos robusta. “A estrutura econômica gera medo da perda do emprego e incentiva uma cultura de hiperdisponibilidade. Muitos profissionais associam valor pessoal ao nível de sacrifício. A cultura do ‘estar sempre ocupado’ virou símbolo de relevância, e isso é perigoso”, analisa.
Segundo o especialista, a mudança exige ações estruturais e individuais. Do lado das empresas, metas realistas, clareza de prioridades e políticas efetivas de desconexão são fundamentais. “Não adianta falar em bem-estar e exigir respostas imediatas fora do horário. A liderança precisa estabelecer limites claros e criar um ambiente psicologicamente seguro, onde o colaborador possa sinalizar sobrecarga sem receio”, afirma.
No âmbito individual, ele recomenda estabelecer fronteiras objetivas entre trabalho e vida pessoal, inclusive no home office, definir horários de início e término do expediente e adotar blocos de foco com pausas estratégicas. Também destaca a necessidade de rever o conceito de alta performance. “Alta performance não é trabalhar até a exaustão. É manter constância com qualidade. Saber priorizar, negociar prazos e dizer ‘não’ quando necessário é competência estratégica”, reforça.
Para Weiler, antes de discutir a semana de quatro dias no Brasil, é preciso revisar processos, expectativas e métricas de desempenho. “Caso contrário, apenas comprimimos cinco dias de pressão em quatro. O desafio não está apenas em reduzir horas, mas em redesenhar a relação com o trabalho, substituindo a cultura da intensidade permanente por uma lógica de sustentabilidade emocional e produtividade de longo prazo”, finaliza.
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