Planos de saúde enfrentam novo paradigma no cuidado ao autismo
Por Waldyr Ceciliano, médico e CEO da True Auditoria
Li recentemente uma reportagem publicada pelo jornal O Globo que evidencia um movimento que, do ponto de vista técnico e assistencial, já não poderia mais ser adiado: operadoras de planos de saúde estão, finalmente, ampliando investimentos em estruturas próprias e especializadas para atendimento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O Brasil tem hoje cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, segundo dados do Censo 2022 do IBGE. Trata-se de uma demanda assistencial expressiva, crescente e que exige cuidado estruturado, contínuo e multidisciplinar. Durante anos, famílias enfrentaram dificuldades de acesso, judicialização e frustração em relação à esses serviços. Agora, o cenário começa a mudar.
De acordo com a matéria, a operadora paulista Care Plus inaugurou, no começo de fevereiro, sua primeira clínica especializada no tratamento de crianças e adolescentes com TEA. O investimento foi de R$ 10 milhões na unidade localizada em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Trata-se de um movimento grande, que demonstra compreensão de que o cuidado especializado exige infraestrutura dedicada e equipes capacitadas.
Outras operadoras também vêm reforçando suas redes próprias. A Hapvida, com forte verticalização da operação, abriu nos últimos dois anos 42 unidades especializadas, acompanhando cerca de 35 mil crianças. O investimento acumulado chega a R$ 159 milhões. Esse dado é particularmente importante porque revela escala e compromisso de longo prazo.
Ainda segundo a publicação do jornal, a Amil registra atualmente 14,1 mil beneficiários no espectro autista. Há três anos, eram 12,1 mil — um crescimento de 16,5%. Desde 2024, por meio da Total Care, seu braço hospitalar, foram abertos 12 Núcleos de Apoio à Criança em Neurodesenvolvimento (Nacnes).
Esses números não são apenas estatísticas corporativas. Eles traduzem uma mudança estrutural na lógica da saúde suplementar. Como médico e como gestor que atua diariamente com auditoria e compliance em saúde, posso afirmar que o investimento em TEA deixou de ser apenas uma questão regulatória para se tornar uma necessidade estratégica.
A ampliação do rol da ANS e o fim de limitações de sessões impuseram um novo paradigma. No entanto, cumprir a norma não basta. É preciso estruturar rede, garantir qualidade assistencial, monitorar desfechos clínicos e assegurar sustentabilidade.
O atendimento ao TEA exige abordagem multiprofissional, protocolos baseados em evidências, acompanhamento longitudinal e integração entre terapias. Quando esse cuidado é fragmentado, o resultado é aumento de custo, insatisfação das famílias e judicialização. Quando é estruturado, o ganho é clínico, social e econômico.
Sob a ótica da gestão, há também uma clara inteligência financeira nesse movimento. Estruturar rede própria e centros especializados permite maior previsibilidade de custos, padronização de protocolos e monitoramento de resultados, reduzindo desperdícios, retrabalho e judicializações – que historicamente oneraram o setor. Ao internalizar parte da operação e organizar o cuidado de forma coordenada, as operadoras deixam de atuar de maneira reativa e passam a gerir risco assistencial com base em dados, acompanhamento e eficiência.
Esse movimento também aponta para algo maior: estamos diante de uma expansão inevitável dos investimentos em saúde mental como um todo. O crescimento dos diagnósticos em neurodesenvolvimento, o aumento de demandas por terapias comportamentais e o reconhecimento de transtornos psiquiátricos em crianças, adolescentes e até adultos indicam que os próximos anos exigirão ampliação de centros especializados, formação profissional e modelos assistenciais mais sofisticados.
Já não era sem tempo que o setor investisse com seriedade nessa área. O autismo não é uma demanda episódica, é uma realidade permanente do sistema de saúde. E quanto mais cedo o cuidado é estruturado, melhores são os desfechos e menor é o impacto assistencial futuro.
A saúde suplementar brasileira começa, finalmente, a alinhar responsabilidade social, visão estratégica e governança clínica. O desafio agora é garantir que esses investimentos se convertam em qualidade mensurável, acesso adequado e sustentabilidade de longo prazo.
O avanço no cuidado ao TEA deve ser visto como o primeiro passo de uma transformação mais ampla na atenção à saúde mental no país. E essa transformação é não apenas desejável, é indispensável.
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