Logo
Imprimir esta página

Liderar no Brasil com rótulos estrangeiros é erro estratégico, afirma especialista

Foto: Isaque Martins Foto: Isaque Martins

Para Virgilio Marques dos Santos, gerações no país são moldadas por ciclos políticos e econômicos — e não pelos modelos de "baby boomers" ou "gen Z" importados dos EUA

Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria

A leitura das equipes brasileiras a partir de categorias como "baby boomers", "millennials" e "geração Z" não apenas simplifica a realidade do país como compromete decisões de liderança, gestão de pessoas e estratégia organizacional. A avaliação é de Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, gestor de carreiras e PhD pela Unicamp, que propõe uma classificação baseada nos marcos políticos e econômicos que moldaram o Brasil nas últimas décadas.

Segundo o especialista, a prática comum em empresas e no debate de recursos humanos de importar modelos geracionais dos Estados Unidos ignora diferenças estruturais profundas entre as trajetórias históricas dos dois países. "Um 'baby boomer' americano cresceu no pós-guerra, com estabilidade e expansão. O brasileiro da mesma idade viveu ditadura, censura e hiperinflação. Tentar gerir essas pessoas com a mesma lente é um erro de diagnóstico", afirma.

Santos se apoia em estudos recentes da ciência política brasileira, como os apresentados pelo pesquisador Felipe Nunes, para sustentar que, no Brasil, o que define gerações não é apenas tecnologia ou cultura de consumo, mas a experiência com crises institucionais, planos econômicos, inflação, redemocratização e polarização política. "Aqui, as pessoas foram formadas por rupturas. Isso afeta expectativas, tolerância ao risco, relação com autoridade e percepção de futuro", diz.

A partir desse contexto, o especialista propõe uma leitura alternativa do mercado de trabalho, dividindo os profissionais em quatro grandes grupos:

Geração Bossa Nova (1945–1964): marcada pelo otimismo desenvolvimentista do período JK e pela interrupção do projeto nacional com o golpe de 1964. "No ambiente corporativo, valoriza ambição, construção de legado e visão de longo prazo, mas carrega desconfiança em relação à instabilidade institucional", avalia.

Geração Ordem e Progresso (1965–1984): formada durante a ditadura e a hiperinflação, hoje ocupa a maior parte dos cargos de liderança. "São pragmáticos, resilientes e tendem a buscar estrutura, hierarquia e previsibilidade. Para esse grupo, discurso sem sustentação econômica não engaja", afirma.

Geração Redemocratização (1985–1999): cresceu após a Constituição de 1988 e o Plano Real, em um período de estabilidade e expansão nos anos 2000. Segundo Santos, "valoriza meritocracia, participação e autonomia, mas se frustra com a lentidão das instituições e com lideranças excessivamente autoritárias."

Geração .Com (2000–2009): jovens que entraram no mercado em meio à crise pós-2014 e à polarização política. "Diferente da gen Z global, o jovem brasileiro é mais cético, menos deslumbrado com benefícios simbólicos e mais atento à saúde mental, autonomia real e coerência entre discurso e prática", diz.

Para o especialista, insistir em modelos estrangeiros empobrece o debate sobre gestão no país. "Não se trata de conflito de gerações, mas de conflito de experiências históricas. A ansiedade do jovem de hoje e a busca por segurança do profissional mais velho têm raízes em traumas econômicos e políticos diferentes", explica.

Na prática, Santos defende que liderar no Brasil exige "tropicalizar" conceitos de gestão para equipes multigeracionais e compreender os contextos que formaram cada grupo. "Isso passa por reconhecer que aquilo que funciona como motivação para um grupo pode ser indiferente — ou até contraproducente — para outro. Para alguns, estabilidade e previsibilidade são recompensa. Para outros, autonomia, participação e aprendizado contínuo. Tratar todos como se buscassem as mesmas coisas é o caminho mais rápido para o desengajamento", relata.

O especialista defende ainda a construção de ambientes que favoreçam a troca entre gerações, com metas claras, critérios objetivos de reconhecimento e espaços reais de escuta. "Respeito mútuo não é discurso: é entender de onde cada um vem, por que reage como reage e como diferentes experiências podem se complementar. Liderar no Brasil é menos sobre aplicar fórmulas prontas e mais sobre ler o país dentro da própria equipe", conclui.

Virgilio Marques dos Santos é um dos fundadores da FM2S, gestor de carreiras, PhD, doutor, mestre e graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp e Master Black Belt pela mesma Universidade. Autor do livro "Partiu Carreira", TEDx Speaker, foi professor dos cursos de Black Belt, Green Belt e especialização em Gestão e Estratégia de Empresas da Unicamp, assim como de outras universidades e cursos de pós-graduação. Atuou como gerente de processos e melhoria em empresa de bebidas e foi um dos idealizadores do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica.


Compartilhe:: Participe do GRUPO SEGS - PORTAL NACIONAL no FACEBOOK...:
 
https://www.facebook.com/groups/portalnacional/

<::::::::::::::::::::>
IMPORTANTE.: Voce pode replicar este artigo. desde que respeite a Autoria integralmente e a Fonte...  www.segs.com.br
<::::::::::::::::::::>
No Segs, sempre todos tem seu direito de resposta, basta nos contatar e sera atendido. -  Importante sobre Autoria ou Fonte..: - O Segs atua como intermediario na divulgacao de resumos de noticias (Clipping), atraves de materias, artigos, entrevistas e opinioes. - O conteudo aqui divulgado de forma gratuita, decorrem de informacoes advindas das fontes mencionadas, jamais cabera a responsabilidade pelo seu conteudo ao Segs, tudo que e divulgado e de exclusiva responsabilidade do autor e ou da fonte redatora. - "Acredito que a palavra existe para ser usada em favor do bem. E a inteligencia para nos permitir interpretar os fatos, sem paixao". (Autoria de Lucio Araujo da Cunha) - O Segs, jamais assumira responsabilidade pelo teor, exatidao ou veracidade do conteudo do material divulgado. pois trata-se de uma opiniao exclusiva do autor ou fonte mencionada. - Em caso de controversia, as partes elegem o Foro da Comarca de Santos-SP-Brasil, local oficial da empresa proprietaria do Segs e desde ja renunciam expressamente qualquer outro Foro, por mais privilegiado que seja. O Segs trata-se de uma Ferramenta automatizada e controlada por IP. - "Leia e use esta ferramenta, somente se concordar com todos os TERMOS E CONDICOES DE USO".
<::::::::::::::::::::>

Copyright Clipping ©2002-2026 - SEGS Portal Nacional de Seguros, Saúde, Veículos, Informática, Info, Ti, Educação, Eventos, Agronegócio, Economia, Turismo, Viagens, Vagas, Agro e Entretenimento. - Todos os direitos reservados.- www.SEGS.com.br - IMPORTANTE:: Antes de Usar o Segs, Leia Todos os Termos de Uso.
SEGS é compatível com Browsers Google Chrome, Firefox, Opera, Psafe, Safari, Edge, Internet Explorer 11 - (At: Não use Internet Explorer 10 ou anteriores, além de não ter segurança em seu PC, o SEGS é incompatível)
Por Maior Velocidade e Mais Segurança, ABRA - AQUI E ATUALIZE o seu NAVEGADOR(Browser) é Gratuíto