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Executivos do setor segurador discutem regulação e transição climática durante agenda em Paris

  • Quarta, 04 Junho 2025 18:07
  • Crédito de Imagens:Divulgação - Escrito ou enviado por  JRS
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Comitiva formada por executivos de seguradoras brasileiras e da CNseg, parlamentares e integrantes do governo brasileiro cumpriu uma extensa agenda em Paris.

Delegação brasileira de representantes do setor segurador e convidados

Uma comitiva formada por executivos de seguradoras brasileiras e da CNseg, parlamentares e integrantes do governo brasileiro cumpriu uma extensa agenda em Paris, com reuniões com empresas e o órgão regulador francês para troca de informações sobre o mercado de seguros e resseguros. Estiveram com as seguradoras AXA e a corretora internacional de resseguros Guy Carpenter e com a ACPR, Autoridade de Supervisão e Resolução Prudencial da França.

Com a ACPR, os debates abordaram o regime prudencial do setor na França, com ênfase nos três pilares da Solvência II: exigências quantitativas, governança e transparência. Também foram discutidas as novas regras em vigor no país este ano, que exigem estruturas robustas de gestão de riscos cibernéticos, realização de testes de estresse e obrigações de reporte. A comitiva brasileira também conheceu a Lei Europeia de Inteligência Artificial, aprovada em 2023, que regula o uso da tecnologia com foco em explicabilidade e equidade. Outro tema tratado foi o mercado francês de Seguro de Proteção de Crédito (CPI), destacando seu porte e estrutura regulatória.

AXA

Durante o encontro com a seguradora AXA, os executivos foram recebidos pela CEO brasileira Erika Medici. A reunião tratou das estratégias da empresa para adaptação às mudanças climáticas, baseadas em três eixos: mitigação, uso intensivo de análise de dados e definição de políticas públicas. Entre as principais iniciativas estão o fim da subscrição de riscos associados ao carvão até 2050, apoio a fontes renováveis de energia e incorporação de princípios da economia circular.

A AXA adota exclusões específicas para carvão, petróleo e gás, e desenvolve produtos voltados à transição energética. A companhia pretende apoiar 9.000 empresas até 2026 e está treinando 130 mil funcionários com apoio de inteligência artificial. Também vem investindo em plataformas digitais para gestão de riscos e divulga métricas como a exposição ao carvão. Na regulação de sinistros, tem adotado práticas sustentáveis, como o uso de peças recicladas e avaliações remotas.

Outro foco da conversa foram as iniciativas ambientais da seguradora, incluindo parcerias com empresas internacionais no combate à poluição por grânulos plásticos e ao desmatamento. A AXA informou ainda que está criando novos produtos ligados a projetos ambientais e deve anunciar uma nova iniciativa até novembro. A empresa também desenvolve uma plataforma para gerir grandes volumes de dados relacionados à sustentabilidade.

Guy Carpenter

Na reunião com a Guy Carpenter, o destaque foi o esquema Netcat do mercado francês, que cobre riscos catastróficos antes considerados inasseguráveis, como terremotos, inundações e perdas agrícolas. Trata-se de um modelo de parceria público-privada para fortalecer a resiliência diante das mudanças climáticas.

A CCR, resseguradora pública ligada ao Estado francês, desempenha papel central no sistema, criado em 1992 e sustentado pelos princípios de solidariedade e responsabilidade. O modelo impõe um adicional de 20% sobre os prêmios de seguros patrimoniais e 9% sobre o seguro de veículos. Em 2023, mais de 200 milhões de propriedades foram cobertas e mais de 3 milhões de sinistros indenizados. A estrutura também financia ações de prevenção, com uma taxa de 12% sobre os prêmios. Entre os desafios do modelo estão manter o equilíbrio financeiro, ampliar as ações preventivas e garantir a segurabilidade, segundo a Guy Carpenter.

Ainda segundo a companhia, o mercado de seguros agrícolas da França passou por uma reforma profunda em 2023, com o objetivo de ampliar a adesão ao seguro multirriscos climáticos (MPCI), frente ao aumento de eventos extremos e à redução do número de produtores — atualmente cerca de 400 mil, distribuídos em 27 milhões de hectares. A Gruphama, lidera o setor, segurando mais da metade das áreas cobertas por MPCI no país.

A reforma introduziu um modelo híbrido que combina seguro privado com subsídios estatais de 70% sobre o prêmio, desde que o produtor cubra entre 70% e 100% da mesma cultura e utilize dados históricos para definir a cobertura. Até 2021, menos de 35% das áreas de grãos e vinhedos estavam seguradas, enquanto frutas e pastagens tinham proteção mínima, por conta da concorrência com o Fundo Nacional de Calamidades, visto como uma solução gratuita pelos agricultores. A exclusão gradual de setores desse fundo e eventos severos, como a geada que atingiu 90% dos vinhedos em 2021, evidenciaram a fragilidade do sistema anterior e motivaram a reforma. O novo modelo busca alcançar 60% de cobertura em grãos e vinhedos e 30% em frutas e pastagens, aumentando a resiliência do setor.

Hoje, o seguro agrícola francês se baseia em modelo de cobertura por produtividade, com avaliação de perdas em campo e obrigatoriedade de incluir todos os riscos climáticos — como geada, seca, granizo e excesso de chuvas. Embora o subsídio de 70% cubra o seguro básico, opções como redução de franquia ou cobertura específica para granizo são comercializadas no mercado, mas sem subsídios. A estratégia combina incentivos regulatórios e financeiros para fortalecer o setor diante das mudanças climáticas.

Para Alexandre Leal, diretor técnico da CNseg e integrante da comitiva, os encontros mostraram que o arcabouço regulatório brasileiro está em linha com o europeu. “Os desafios são parecidos. É interessante observar que, em temas ligados à sustentabilidade, a Europa está mais avançada na análise e modelagem de dados, pelo menos no que chega às seguradoras. Uma aproximação maior com a academia poderia ajudar a reduzir esse gap de modelagem e informações”, afirmou o executivo.


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