Fotos de visualização única no WhatsApp podem se tornar públicas?
Quebra do sigilo telefônico do banqueiro Daniel Vorcaro e a revelação de conteúdos restritos deixam usuários do app inseguros
As investigações da Polícia Federal no Caso Master e as recentes revelações das mensagens de visualização única trocadas entre o banqueiro preso Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deixaram os brasileiros com uma grande dúvida: as fotos pessoais que são enviadas pelo app podem ser descobertas e visualizadas por outras pessoas?
O WhatsApp é o principal canal de comunicação do Brasil, com 147 milhões de usuários mensais, ou seja: 99% da população conectada à internet, segundo a Statista. Em pesquisa da Opinion Box, 71% dos usuários afirmaram usar o software para trocar fotos. Mas afinal, existe mesmo garantia de sigilo e privacidade nas mensagens do WhatsApp, especialmente nas de visualização única?
Para tirar essa e outras dúvidas, convidamos o professor Luiz José Rohling, da Escola Jurídica do Centro Universitário Internacional Uninter e consultor de cibersegurança há mais de 25 anos, para responder algumas perguntas. Confira.
As mensagens de visualização única não impedem o acesso da polícia em investigações criminais. Qual é o limite ético entre a segurança pública e a segurança de dados?
Os sistemas estão realmente cada vez mais seguros. Porém, no caso de uma investigação criminal, com a devida autorização judicial, a utilização das ferramentas de "quebra de senha", que seria o equivalente ao "arrombamento" de um cofre que contivesse documentos físicos ou até mesmo objetos que representam elementos de prova de um crime. Ou seja, a ética se aplica no manuseio destas provas, que, no âmbito digital, seria a não divulgação dos dados digitais obtidos. Portanto, o limite da privacidade está associado ao processo de investigação criminal, e a ética aplicada no tratamento das provas deve ser a mesma na esfera física e digital.
No caso de uma investigação criminal, tudo pode ser descoberto?
Todos os aplicativos utilizam um processo de armazenamento, para então exibir o texto, imagem, áudio ou vídeo. Os softwares que mostram as mensagens de modo temporário, em geral, apenas indisponibilizam o acesso a estes dados, após o tempo pré-determinado. Porém, normalmente, eles não apagam a comunicação já exibida. Assim, com as plataformas adequadas e caso as informações ainda estejam armazenadas no dispositivo, é possível recuperá-las. Para isso, a ferramenta forense precisa “conhecer” o processo de armazenamento a fim de tentar obter esses dados. Muitas vezes, o espaço onde o conteúdo temporário ficou guardado foi reutilizado para novos registros e, portanto, não pode mais ser recuperado. Dessa forma, nem tudo pode ser descoberto e trata-se de uma questão de probabilidade.
O WhatsApp diz que todas as conversas são criptografadas. O chat do aplicativo é um ambiente seguro ou não?
A segurança é garantida durante a transmissão das mensagens entre os dois dispositivos que estabelecem a conversa. Dessa forma, mesmo que os dados sejam interceptados ao longo do trajeto (rede local ou internet), permanecem criptografados e não podem ser decifrados. No entanto, nos dispositivos, essas informações ficam acessíveis. Assim, com a senha do usuário, em um processo de investigação forense, é possível consultar todo o histórico de conversas armazenado por padrão.
Em resumo, o WhatsApp é seguro na transmissão das conversas, mas, com acesso às credenciais do usuário, o conteúdo pode ser visualizado sem grandes restrições. A proteção da comunicação é elevada, garantindo privacidade; contudo, se o smartphone estiver comprometido por malware que permita acesso aos aplicativos, um invasor poderá obter todos os dados disponíveis.
Tem como rastrear tudo?
Na comunicação "convencional" existem várias formas de rastreio, mas que demandam também de informações dos provedores de acesso à Internet ou das operadoras de telefonia móvel, além dos dados dos dispositivos dos usuários. Existem formas de comunicação que são muito difíceis de rastrear, como o uso da deep web ou de sistemas que fazem a conexão passar por vários intermediários, como VPNs e proxies. Esse tipo de recurso costuma ser utilizado por organizações criminosas ou por pessoas que precisam evitar a vigilância, como em países com governos autoritários.
Os sistemas estão realmente cada vez mais seguros, mas as fotos de visualização única podem ser descobertas em investigações criminais ou invasões de hackers. Por isso, vale repensar o conteúdo enviado neste tipo de mensagem, tendo em vista que não só fotos, mas áudios, vídeos e textos podem ser encontrados e até divulgados, mesmo contra a vontade do usuário, no caso de invasões.
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