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Do ransomware ao roubo de perfis em redes sociais, captura de credenciais está no centro de ataques cibernéticos

Axur observou 54 milhões de credenciais capturadas pelo RedLine, um código utilizado para atacar youtubers que também ameaça redes corporativas.

Trechos do código-fonte de diversos serviços da Microsoft vazaram na semana passada após um ataque de hackers. Mais do que assumir o incidente, a empresa publicou um extenso relatório sobre os responsáveis – o Lapsus. É o mesmo grupo criminoso que atacou o Ministério da Saúde no Brasil com um vírus de resgate (ransomware).

A perícia da Microsoft determinou que o Lapsus obteve uma credencial de acesso de um funcionário. Ainda que limitadas, as permissões desse colaborador eram suficientes para a leitura e extração dos códigos-fonte vazados pela gangue.

O roubo de credenciais é, de fato, uma peça-chave nas operações do Lapsus e de outros grupos de invasores digitais. Não é raro que esse acesso inicial à rede da empresa possa ser estendido até se tornar um vazamento de dados ou um sequestro digital, o que cria uma demanda por ferramentas especializadas na captura de credenciais.

Códigos maliciosos como o Racoon e o RedLine, vendidos ou alugados por US $100 no submundo do cibercrime, são normalmente enviados por e-mail ou disseminados em publicações e comentários fraudulentos em redes sociais. Depois de executados, eles capturam dados do navegador e do sistema, incluindo senhas, e costumam desaparecer logo em seguida para não dar chance aos antivírus.

A Axur, que é especializada no monitoramento de vazamentos de dados na deep & dark web, tem acompanhado de perto alguns operadores do RedLine. A atuação dos criminosos já expôs mais de 54 milhões de credenciais só em 2022 – e cada uma delas pode ser comercializada ou cedida a outros criminosos em troca de uma fatia dos lucros obtidos com ataques.

O volume por si só já impressiona, mas nem sempre transmite a dimensão do problema representado por algumas senhas de alto valor. Nos registros analisados, identificou-se que cerca de 30 mil dessas credenciais roubadas são de contas que administram a infraestrutura de sistemas em nuvem, o que pode colocar em risco todo o negócio das empresas impactadas. A análise dos dados também encontrou centenas de menções às maiores empresas do Brasil.

De gasoduto a youtubers

Uma credencial válida na mão de hackers pode ser usada contra praticamente qualquer um – seja uma grande empresa ou um profissional da economia criativa.

O sequestro digital que causou a paralisação do gasoduto Colonial Pipeline em maio de 2021, por exemplo, partiu de uma credencial comprometida. A análise do incidente levantou a hipótese de que um colaborador tenha "reciclado" sua senha corporativa em um site que foi vítima de vazamento, criando uma brecha na segurança da empresa.

A atividade de ladrões de credenciais, como o RedLine, dá um novo contorno para essa ameaça. Colaboradores podem ser vítimas de um ladrão de senha em seu computador pessoal também, e o conjunto de dados extraído do sistema, pode indicar a possibilidade de que uma das senhas é válida para acesso à rede da empresa.

Essa revalidação de credenciais (a tentativa de usar uma credencial roubada em outros canais) é chamada de credential stuffing e amplia os alvos em potencial.

Profissionais independentes e criadores de conteúdo também precisam ficar de olho. O Google já alertou que ferramentas como o RedLine são utilizadas em campanhas de ataque direcionadas a youtubers. Os golpistas enviam uma suposta oferta de publicidade ou parceria com um link para o software, roubando a credencial de acesso para a conta proprietária do canal.

O uso de serviços como o MinhaSenha.com, que indica as senhas vazadas associadas a um endereço de e-mail, ajuda a prevenir ataques, mas o cuidado deve ser constante.

Um drible na verificação em duas etapas

Um ladrão de senha tradicional registra dados durante a transmissão ou digitação. O RedLine captura credenciais armazenadas, incluindo as sessões ainda ativas no navegador web. O invasor pode então configurar esse código de autorização diretamente no navegador dele e passar direto pelo login.

A verificação em duas etapas raramente protege contra esse cenário. Depois que um código de autorização é obtido pelo navegador do usuário legítimo, ele pode ser reutilizado nos próximos acessos. Se o código for extraído, a autorização também passa para o invasor. Como não é necessário acesso à senha única (os números recebidos por SMS ou gerados em um aplicativo), a autenticação multifator não entra em jogo.

Empresas que utilizam a nuvem pública em sua infraestrutura ou atuam no desenvolvimento de software precisam ter cuidado com as chaves de acesso. Elas também contornam a verificação em duas etapas, são um alvo em potencial dos ladrões de credenciais e podem também vazar em repositórios de códigos. Carteiras de criptomoedas correm o mesmo risco.

É possível reagir rápido e evitar o prejuízo

A captura de credenciais para acesso indevidos não é algo novo. O que mudou é a disposição dos atacantes para explorar as possibilidades que cada uma dessas senhas oferece.

Outra novidade está na pluralidade de credenciais em uso. Seja uma autenticação multifator, a biometria, uma chave de nuvem pública, um certificado ou uma carteira digital, todas elas ainda funcionam de uma forma muito parecida com as senhas e, muito provavelmente, estão vulneráveis a roubo.

É fundamental enxergar esse risco e adotar as medidas corretas para evitar a exposição de todas essas credenciais. Mas amenizar o risco da exposição dessas credenciais passa pela existência de um monitoramento do ambiente e, no melhor cenário, de uma visão antecipada da atuação dos atacantes.

Quem reage antes pode evitar um ataque antes mesmo dele ser concretizado.


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