TikTok vira ‘campo de batalha’ e molda narrativa da guerra na Ucrânia
No começo dos anos 1990, na era pré-internet, a cobertura da Guerra do golfo aconteceu no formato broadcast, sem a possibilidade das pessoas interagirem entre si ou ocuparem o papel de emissoras. Grupos midiáticos eram emissores e a população geral era receptora.
No atual conflito entre a Rússia e a Ucrânia temos uma mudança completa de cenário, pois vivemos a era da comunicação distribuída, onde todos são emissores e receptores. Plataformas de redes sociais aliadas à internet via satélite (como a Starlink de Elon Musk), permitem que todos manifestem suas visões na rede. Principalmente do lado ucraniano, já que na Rússia confrontar a narrativa do governo pode resultar em prisão.
O TikTok ocupa um papel de destaque global neste cenário. É a rede que mais cresce e que revolucionou como fazemos vídeos curtos através de poderosas e simples ferramentas de edição, tornando o formato de stories ainda mais eficiente para contar histórias. E é por meio dessa plataforma que o mundo tem se informado em quase ao vivo sobre diversos temas. E no contexto do atual conflito não é diferente.
Essa não é a primeira vez que uma rede social protagoniza um conflito. O Twitter deu voz a dissidentes no Irã em 2009 e à posterior Primavera Árabe. Já o Facebook foi o instrumento de repressão militar em Mianmar em 2020, assim como permitiu a mobilização e o registro da invasão do Capitólio nos EUA em 2021. Mas agora existem algumas diferenças.
O Twitter tem uma característica particular que é a publicação de conteúdo via SMS, dessa forma foi possível usá-lo para driblar bloqueios de internet. Apesar de o Facebook já ter sido a plataforma global de redes sociais mais utilizada, ela perdeu seu espaço para ferramentas mais ágeis de publicação como o Tik Tok.
O Tik Tok contando recursos audiovisuais avançados, mesmo sem a flexibilidade do Twitter, teve a internet via satélite como aliada, que não tem como derrubar com mísseis de guerra. Esses recursos de edição de vídeo e áudio geram materiais mais atraentes para serem consumidos, com mais qualidade e efeitos, servindo melhor ao propósito de contar uma história de forma envolvente.
Desde o registro fotográfico das vítimas civis da Guerra do Vietnam. o poder da imagem é decisivo na mobilização popular. O formato do TikTok troca a combinação foto + texto, por vídeo com efeitos especiais.
Aqui um alerta para os influenciadores digitais, apesar de poder viralizar e monetizar todo tipo de conteúdo, isso pode destruir sua reputação. Lucrar com um evento onde milhares de pessoas estão sendo mortas e expulsas de suas casas é altamente antiético e imoral.
De acordo com a lógica do seu algoritmo, o TikTok tende a exibir mais conteúdos do conflito a um número maior de pessoas, conforme isso impacta a audiência do conflito. A plataforma detecta de forma automática conteúdos que você mais consome, basta pausar em um post enquanto estiver rolando a tela que ele já entende como interesse, mesmo sem curtir ou comentar.
Considerando que a cobertura da guerra gera vídeos chocantes isso faz com que as pessoas naturalmente prestem atenção e esses vídeos então começam a ser priorizados no algoritmo. Temos então uma cobertura colaborativa com audiência global que pode viralizar conteúdos em questão de poucas horas.
O consumo de mídia está mais fragmentado. Além do rádio e TV, temos plataformas de podcasts, streamings, redes e canais sociais como Twitter, YouTube, Instagram, entre outros. No munto atual o TikTok possui a melhor combinação de alcance e algoritmo para viralizar conteúdos, ocupando um papel central na formação da opinião pública, maior até do que a TV tradicional.
A Ucrânia tem se utilizado muito bem desta estratégia, já que, além da liberdade de expressão, tem a opinião pública ao seu favor. Somos solidários a quem está sendo ameaçado e não a quem está puxando o gatilho, o que constrói uma narrativa global a favor da Ucrânia e anti-Rússia. E se tem algo possível de prever em relação à cobertura “tiktokizada” deste conflito é que ainda vamos sentir seus impactos na cultura global muito tempo depois dessa guerra acabar.
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