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A democratização dos sistemas alimentares

Maurício Antônio Lopes

Pesquisador da Embrapa

Um dos grandes feitos da humanidade nos últimos 13 mil anos foi o desenvolvimento da agricultura, com nossos ancestrais aprendendo a produzir alimentos de forma sistemática, o que pôs fim a um período de quase 200 mil anos em que os humanos dependiam da caça e da coleta do que a natureza tinha a oferecer. Embora a agricultura tenha demandado mais trabalho do que a caça e a coleta, essa capacidade de produzir calorias de forma abundante e regular prendeu as pessoas a terra, deu origem às cidades e transformou radicalmente as sociedades humanas, tendo levado ao crescimento da população global de 4 milhões para 7 bilhões desde 10 mil anos a.C.. A agricultura foi, portanto, a força motriz por trás do crescimento das civilizações.

Os últimos cinquenta anos foram especialmente marcantes para a agricultura e os sistemas alimentares, impactados pelo crescimento econômico, pela urbanização acelerada,por avanços em tecnologias de produção,processamento e armazenamento, que levaram ao surgimento de uma indústria alimentar,que, por sua vez,mudou a maneira de acessar e consumir alimentos ao redor do mundo. Acordos comerciais patrocinados pela Organização Mundial do Comércio (OMC), a partir de 1995, fortaleceram esse movimento, levando à abertura e à integração dos mercados, reduzindo tarifas e barreiras não tarifárias às importações e permitindo a rápida expansão de um potente sistema alimentar industrial, operando em âmbito global.

Essa interação entre comércio internacional e agricultura foi capaz de conformar complexas cadeias de suprimentos operadas por grandes corporações que ganharam enorme capacidade de influenciar a dinâmica dos sistemas alimentares— desde definições do que, onde e quando produzir, até decisões que impactam o processamento, a distribuição e o consumo de alimentos. Um grande benefício dessas cadeias de valor globais está no fato de os países poderem se especializar naquilo que é sua vocação natural, fornecendo pelo menor preço o que muitos precisam, mas não podem produzir com igual eficiência. Ao conectarem produtores e compradores em todos os cantos do planeta, via sistemas logísticos sofisticados, esses modelos de comércio dão aos consumidores, em qualquer lugar, acesso a alimentos a preços menores.

No entanto, cresce a cada dia a preocupação com a excessiva concentração de poder em segmento tão essencial para o bem-estar da humanidade, já que um número relativamente limitado de operadores ganhou capacidade de influenciar praticamente todas as etapas críticas dos sistemas alimentares — desde a produção até o consumo. E é crescente o número de consumidores que se sentem cada vez mais privados da autonomia de escolher os alimentos que desejam consumir ou de fazer escolhas mais saudáveis.

Essa é uma preocupação reforçada pelo Relatório Global de Nutrição 2020, que indica uma em cada três pessoas em todo o mundo com sobrepeso ou obesidade. Há também número crescente de países experimentando um duplo fardo: a desnutrição coexistindo com o sobrepeso, a obesidade e outras doenças que comprometem a saúde imunológica. Hoje, pessoas imunodeprimidas e desnutridas em todo o mundo sofrem desproporcionalmente as consequências letais da pandemia de Covid-19.

O fato é que cidadãos cada vez mais informados e conscientes se dão conta de que o sistema alimentar está excessivamente centrado no lucro e precisa ser reinventado para cumprir a missão de fornecer alimentos acessíveis, seguros, nutritivos — e aceitáveis — para todos. Movimento que certamente crescerá na conjunção das crises sanitária e econômica — impostas pela pandemia de Covid-19 —acrescidas das preocupações com a mudança climática, todas se somando para colocar em xeque a confiabilidade e o desempenho dos sistemas alimentares. Crises que fortalecem a percepção de que os consumidores é que devem ganhar o centro do sistema alimentar, o que demandará alteração na concentração de poder, com ampliação da autonomia dos indivíduos na relação com os alimentos.

O chamado Green New Deal, ou retomada verde, — um grande acordo social para reinvenção das práticas de criação, distribuição e consumo de riqueza — é, cada vez mais, reconhecido como saída para a superação dos infortúnios da pandemia. O movimento nasce da mobilização de governantes, líderes empresariais, investidores e formadores de opinião ao redor do globo. Em destaque está a busca por inovações que viabilizem sistemas alimentares mais resilientes, assegurando aos cidadãos liberdade de escolha para acesso a alimentos seguros, na quantidade e qualidade necessárias para atravessar períodos de crises e incertezas.

Movimentos assim tenderão a conformar cadeias de valor mais diversificadas e resilientes, capazes de atender às expectativas de consumidores exigentes, garantindo ainda redundância e funcionamento, mesmo em caso de riscos inesperados. De maneira interligada a essa tendência, legisladores e tomadores de decisão certamente estarão mais atentos aos códigos de conduta relacionados à saúde dos consumidores, à liberdade de escolha e de acesso a dietas saudáveis, ao tratamento justo aos trabalhadores e aos cuidados com o meio ambiente.A busca por diversidade e resiliência deverá também fortalecer a produção local, que amplia a autonomia dos consumidores no acesso ao alimento e viabiliza o abastecimento em situações de crise, além de contribuir para a expansão de oportunidades econômicas e superação de desigualdades sociais e exclusão.


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