Brasil,

Bullies: por mais entretenimento e menos bullying

Recém indicado para festivais de cinema internacionais, Bullies, do cineasta Daniel Bydlowski, chega para ajudar as crianças nessa batalha contra a violência

Ainda me lembro como filmes dos anos 80 ajudaram a mim e aos meus amigos a lidar com muitos problemas que, embora agora pareçam muito pequenos, na escola eram enormes. No Brasil de 1980, enquanto não havia nem a palavra bullying para descrever o assédio físico e mental das crianças, já existiam filmes como E.T. o Extraterrestre, A História Sem Fim, e Karatê Kid. Estas produções tinham algo em comum: um protagonista triste e solitário que, ridicularizado por aqueles ao seu redor, encontra amigos com os quais aprende a lidar com a vida de forma positiva. É este o ponto de partida do filme Bullies, dirigido por mim (Daniel Bydlowski), que também responde a mudanças em como o cinema retrata este tipo de personagem nos anos 2000.

E.T. o Extraterrestre, dirigido por Steven Spielberg em 1982, mostra Eliot, um garoto sem figura paterna e zombado pelo seu irmão que faz amizade com um alienígena, que o ajuda amadurecer e enfrentar sua solidão. Em A História Sem Film, dirigido por Wolfgang Petersen em 1984, o protagonista Sebastian é um menino solitário e sem mãe que é perseguido por valentões (bullies) já no começo do filme. Sem amigos, ele encontra um livro magico e é transportado para uma terra de fantasia, que o ajuda a enfrentar seus oponentes no final do longa. Embora Karatê Kid, dirigido por John G. Avildsen em 1984, não seja um filme de fantasia como os anteriores, ele também mostra um protagonista bondoso, Daniel, que é fisicamente agredido por brigões. No final, é por meio do Karatê que Daniel consegue parar com o assédio.

Tudo isso parece mudar de figura nos anos 2000, onde este tipo de personagem começa a ficar mais raro. Paradoxalmente, é também nesta época que o bullying começa a entrar na mídia de maneira mais forte. Ainda mais interessante é que a maior parte do enfoque contra essas agressões é dirigido para pais e educadores, não lidando com as crianças que sofrem este tipo de hostilidade. Até mesmo filmes que mostram personagens que são zombados e agredidos, não os retrata de maneira que crianças que passam por isso possam se identificar. Por exemplo, no filme Transformers, dirigido por Michael Bay em 2007, o protagonista Sam pode ser zombado na escola, mas sua atitude meio que pretenciosa não o redime. Até mesmo o personagem Greg, no filme Diário de um Banana de 2010, não tem aquele sofrimento sentido pelos personagens dos anos 80, com o bullying ficando apenas na superfície.

O filme Bullies muda isto e volta a dar as crianças o tipo de entretenimento que pode fazê-las lidar, mesmo que mentalmente, com seus problemas. O protagonista do filme, Eugene, sofre bullying todos os dias, até que encontra um esconderijo no subsolo da escola. Lá Eugene encontra amigos, que também se escondem de seus bullies. Embora este lugar seja o sonho de qualquer criança, com brinquedos e chocolate, Eugene entende que somente terá uma vida completa se voltar a escola e encarar seus problemas de frente. Usando a metáfora do suicídio que muitas crianças que sofrem agressão acabam recorrendo, e com o estilo de filmes dos anos 80s, Bullies não finge poder acabar com o problema para sempre. Porém, mais importante ainda: a produção dá às crianças um espaço seguro onde podem se divertir e lidar com suas dificuldades.

Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro com Masters of Fine Arts pela University of Southern California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Seu filme NanoEden, primeiro longa em realidade virtual em 3D, estreia ainda este ano de 2017.


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