Brasil, 14 de Dezembro de 2017
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TOKIO MARINE SEGURADORA

Aleitamento materno: isso é “para inglês ver”? 

Não acredito que alguém tenha qualquer dúvida a respeito da importância do aleitamento materno, segundo as recomendações da Organização Mundial de Saúde, (OMS): desde a sala de parto, exclusivo e em livre-demanda até o 6º mês, estendido até 2 anos ou mais.

Dia após dia, esse tema é debatido, discutido e ainda não consigo entender quais os motivos que dificultam essa prática de alimentação saudável, levando benefícios ao bebê (lactente) e às mães que amamentam (lactantes), fortalecendo o vínculo, favorecendo um mundo mais humano e mais interessante de se viver.

E não se trata de um julgamento. De forma alguma, uma mãe que, por qualquer razão, não amamenta seu filho não é uma mãe melhor ou pior do que as outras que amamentam. Trata-se simplesmente de INFORMAÇÃO, de estudos científicos. O fato de algo não ser adequadamente praticado não tira sua validade. Vale assim para não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas na gestação, para prática de exercícios físicos, entre tantas outras questões que, apesar de (quase?) todos conhecerem os riscos, não é uma unanimidade nas ações.

Na comemoração do Dia das Mães no Reino Unido (26 de março), uma campanha (#freethefeed - movimento que promove uma abordagem não-julgadora da amamentação), de uma agência de publicidade (Mother London), “viralizou” e o mundo viu a imagem de um seio gigante sobre um prédio, publicada inclusive no New York Times, entre outros, para “sensibilizar as pessoas na Inglaterra sobre os estigmas sociais que cercam a amamentação, especialmente, em público.”

Segundo a agência, “Esse foi nosso projeto para o Dia das Mães. Uma celebração de que toda mulher tem o direito de decidir onde e como quer alimentar seus filhos sem se sentir envergonhada ou culpada por suas escolhas”.

Pois vejam só as matérias publicadas no The Guardian (jornal de língua inglesa de maior distribuição mundial), também da Inglaterra, uma delas (09/09/2016) sobre a baixíssima taxa de aleitamento materno no país (uma das menores do mundo), outra (23/03/2017) afirmando que menos de 50% das mães inglesas continua amamentando após os 2 meses de idade e uma mais recente (28/03/2017) mostrando a experiência dessas mães em relação ao aleitamento.

Chamou minha atenção uma matéria publicada em 09/04/2017 num site com o título: “O que as mães modernas pensam sobre amamentação: não é real”, onde é citada uma pesquisa realizada com 500 mães, em Londres, mostrando que 75% delas iriam parar de amamentar devido ao medo de dor, 71% devido a tomar remédios e 63% devido ao embaraço de ter que amamentar em público.

Vale lembrar que o The Lancet é uma revista inglesa de grande influência, que abrange também a área de Pediatria, e na qual foi publicada uma importantíssima série sobre aleitamento materno, com a participação de um médico brasileiro (Dr. Cesar Victora), premiado recentemente no Canadá (prêmio Gairdner de Saúde Global) pelos brilhantes serviços prestados em prol da saúde mundial por defender a relevância da amamentação.

O Prêmio Gairdner distingue anualmente sete cientistas por suas contribuições à pesquisa em medicina e saúde global, que reconhece avanços científicos que produziram profundo impacto para a saúde em países em desenvolvimento. Cada um dos premiados é considerado um potencial candidato ao prêmio Nobel.

Voltando à matéria do site, no estudo foram destacadas seis razões alegadas pelas mães para não quererem amamentar.

· Toda a experiência foi cansativa.

A maioria das mães com seu primeiro filho descobriu que o aleitamento materno é exaustivo, especialmente quando há tarefas domésticas associadas, e o desgaste pode afetar seu bem-estar físico, emocional e mental.

· Isso tornou o bebê mais satisfeito.

A amamentação é altamente recomendada, mas pode não satisfazer o bebê e a mudança para fórmula faz ver o bebê crescer.

· Falta de suporte.

A licença paternidade curta (duas semanas) deixará a mãe sozinha para cuidar do bebê e da casa, e essa falta de apoio pode trazer o risco de desmame precoce.

· Algumas mães simplesmente não gostam.

Uma mãe da pesquisa rejeitou a ideia e a prática da amamentação, sentindo-se emocionalmente abalada e sem apoio para essa questão dos profissionais de saúde.

· Pressão social.

As mães se sentem muito questionadas sobre o tempo de amamentação e são pressionadas para o uso de fórmulas acima de 3 meses, colocando em risco a amamentação.

· Antigos costumes sociais.

A mentalidade tradicional, antiga, considera o aleitamento materno como um tabu e socialmente inaceitável, prejudicando a amamentação em público.

Assim como na Inglaterra, outros países de 1º mundo apresentam essa abordagem em relação ao aleitamento materno e contam com uma taxa baixíssima (Estados Unidos, França, entre outros) dessa prática.

Apesar de as nossas taxas de duração do aleitamento materno exclusivo (AME), percentual de AME até o 6º mês, taxa de AM até 1 e 2 anos serem muito mais significativas, nos últimos 10 anos, pudemos observar uma estagnação desses valores.

Nossas ações institucionais (Iniciativa Hospital Amigo da Criança, Método Canguru, Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e. Crianças de 1ª Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras, Semana Mundial de Aleitamento Materno, Lei para favorecer aleitamento materno em público) estão em andamento, mas ainda precisamos de um apoio e conscientização maiores e mais efetivos da sociedade, do governo, dos profissionais de saúde, dos empresários, das escolas para atingirmos a meta da OMS de 50% de aleitamento materno até o 6º mês em 2.025.

Então, vamos agir. Juntos. Em apoio às mães e às crianças. Isso pode garantir o futuro do Brasil, do mundo e dessas próximas gerações.

*É uma expressão cujo sentido o Dicionário Houaiss define como “para efeito de aparência, sem validez”. Uma das explicações mais aceitas é do filólogo João Ribeiro em seu livro “A língua nacional”: no tempo do Império, as autoridades brasileiras, fingindo que cediam às pressões da Inglaterra, tomaram providências de mentirinha para combater o tráfico de escravos africanos – um combate que nunca houve, que era encenado apenas para inglês ver”. O sentido da expressão nesse contexto é exatamente o mesmo que ela tem até hoje.

Dr. Moises Chencinski

· CRM-SP: 36.349

· Pediatra e homeopata

· Presidente do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (2016 / 2019)

· Membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

 

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