MERCADO SEGURADOR BRASILEIRO

O RESULTADO FINANCEIRO

 

RESULTADO FINANCEIRO 2004




Desde de meados do ano passado temos escutado e lido bastante em reportagens a preocupação do Mercado Segurador com a perspectiva de queda contínua da taxa de juros básica, a chamada Taxa SELIC.

 

O Sistema Especial de Liquidação e Custódia (SELIC) foi criado em 1980, sob a responsabilidade do Banco Central do Brasil e da Associação Nacional das Instituições dos Mercados Aberto (ANDIMA), é um grande sistema computadorizado em tempo real (de forma imediata) ao qual têm acesso apenas às instituições credenciadas no mercado financeiro.

 

Por esse sistema, os negócios têm liquidação imediata. Os operadores das instituições financeiras envolvidas, após acertarem os negócios envolvendo títulos públicos, transferem essas operações, via terminal, ao SELIC. O sistema imediatamente transfere o registro do título para o banco ou instituição compradora e faz o crédito na conta do banco ou instituição vendedora. Nesse sistema temos somente os títulos da dívida pública federal, estadual e municipal.

 

A taxa referencial de juros SELIC ou taxa básica de juros da economia brasileira é definida nas reuniões mensais do Comitê de Política Monetária (COPOM), onde se examinam as perspectivas de inflação, taxas de juros dos países desenvolvidos, preços do petróleo entre outras variáveis, e definem uma taxa de juros com o objetivo de cumprir a meta de inflação do ano. Portanto é a taxa de juros que o governo se dispõe a pagar para quem investir em seus títulos.

 

Não menos famosa temos a Taxa CDI, que reflete a média das taxas negociadas entre bancos diariamente, sendo aplicada como taxa referencial para remunerar os conhecidos títulos de renda fixa.

 

As taxas SELIC e CDI tendem a ser muito próximas, por isso os fundos de renda fixa costumam ter títulos públicos federais indexados à taxa básica de juros em suas carteiras. Na verdade o CDI é um espelho da SELIC, mas, enquanto um é estabelecido pelas negociações entre bancos, a outra é definida pelas negociações com títulos públicos.

 

Como sabemos as empresas seguradoras, de previdência privada e de capitalização efetuam pesadas provisões para garantia dos eventos contratados por seus clientes. Essas provisões são obrigatoriamente vinculadas a ativos financeiros, os quais, na sua grande maioria, são remunerados pelas taxas acima mencionadas.

 

A posição dos ativos financeiros vinculados as provisões técnicas era a seguinte:

 

R$ milhões

 

      2003

 

    2002

 

 03/02

 

         R$

    %

       R$

      %

      %

 

 

 

 

 

 

Renda Fixa

       22.745

      65,2

     16.237

      56,1

    40,1%

Títulos do Governo

       10.544

      30,2

     10.864

      37,5

   - 2,9%

       Sub-Total

      33.289

     95,4

   27.101

     93,6

  22,8%

Imóveis

            390

        1,2

         443

        1,5

 - 11,9%

Renda Variável (ações)

         1.240

        3,5

      1.415

        4,9

 - 12,4%

      Total Geral

      34.919

   100,0

   28.959

   100,0

  20,6%

 

 

 

 

 

 

Fonte: SUSEP

 

Bom agora dá para se ter uma idéia do alvoroço que ocorre quando a taxa SELIC é reduzida. Cerca de 95% das aplicações financeiras do Mercado Segurador estão atreladas a títulos corrigidos por ela ou pelo CDI.

 

Em 2004 tivemos algumas empresas que atrelaram seus títulos a outros indexadores, conseguindo ganhos financeiros mais robustos. Contudo, de uma forma geral, o Mercado sofreu com a redução da taxa básica de juros (como já mencionado no artigo de análise do mercado segurador – I semestre/04).

 

Historicamente o Mercado de Seguros, Previdência e Capitalização obtiveram resultados operacionais positivos em função do Resultado Financeiro. Na verdade sempre se praticou preços inferiores a realidade de seus custos (via descontos promocionais e etc) a fim de obter maior volume de vendas / mercado, se fiando nos polpudos ganhos via aplicações financeiras.

 

De fato esses ganhos sempre foram elevadíssimos, compensando a prática de preços inferiores à realidade. De fato os preços são calculados corretamente, mas quando se deseja abocanhar maiores fatias de mercado ou da concorrência aplicasse o chamado desconto promocional. Também não podemos esquecer dos custos agregados as modalidades de automóveis sem repasse nos preços, visando unicamente tornar um produto com maior valor agregado para os clientes (um diferencial).

 

Mas quando essa taxa de juros começa a declinar (o que está corretíssimo) a situação fica desconfortável. Os custos não repassados aos preços, a interferência do governo num setor que desconhecem e a concorrência predatória acabam sendo superiores as antigas folgas financeiras. Bom aí não tem jeito, acabam-se os descontos promocionais, elevam-se os preços, reduzem-se os custos fixos (desemprego), diminuem-se as comissões e esmagam-se os preços dos prestadores de serviços (reguladores, vistoriadores e outros).

 

Como o sistema de combate à fraude é frágil e sem dispor mais dos recursos oriundos do financeiro, reduz-se à remuneração de quem deveria impedir e combater as fraudes. Aqui o final todo mundo sabe.

 

Tomando por base o saldo médio dos principais ativos financeiros geradores de ganhos financeiros para as empresas em questão desde 2000 e as receitas financeiras oriundo dos mesmos, vamos encontra a taxa média de remuneração financeira do mercado, a saber:

 

R$ milhões - % ao ano.

 

SALDO MÉDIO

    REC.FIN.

 TX. MÉDIA

 

 

 

 

2.000

           22.213

             4.643

        20,89%

2.001

           28.024

             5.340

        19,05%

2.002

           38.015

             9.140

        24,04%

2.003

           54.109

           12.171

        22,49%

2.004 (*)

           69.137

             6.727

        17,25%

 

 

 

 

(*)- JAN A JULHO-04

 

Em se mantendo a tendência do período de jan a julho-04 a taxa média de aplicação ficará ligeiramente acima da SELIC projetada para o final do ano (16,5% - taxa atual). De toda sorte ficará bem acima da inflação projetada. Entretanto, para um mercado que sempre compensou os desvios operacionais (provocados ou não) com os ganhos financeiros a situação não é das melhores, principalmente depois que o governo se meteu a ser regulador dos preços da modalidade do seguro saúde.

 

De fato o Resultado Operacional, mantendo a situação atual, vai declinar, cabendo reformulações na operação, a fim de minimizar a queda da taxa de juros.


Como calculei uma taxa média para os ativos financeiros, tive que aferir uma média para os demais indicadores ou indexadores da Economia, apurando a seguinte evolução:

 

                                    TAXAS - INDICADORES

 

Bem, com relação à Receita Financeira e seus indexadores acredito que tenha colocado de uma forma bem didática, pelo menos é o que sempre busco, fugindo os economês, contabilês e estrangeires que os pseudo – analistas tanto gostam.

 

Em confronto com as Receitas Financeiras temos as Despesas Financeiras, oriundas, em grande parte, da correção das provisões técnicas das operações de previdência privada (incluído os excedentes financeiros dos planos).

Então de um lado temos as receitas financeiras oriundas dos ativos financeiros vinculados às provisões e do outro as despesas financeiras geradas pelas provisões. Essas despesas decorrem dos indexadores atrelados, principalmente, aos planos de previdência privada.

O Resultado Financeiro apresentou a seguinte evolução:

 

EM R$ MILHÕES (em 2004 temos de jan a julho)

 

 

EM % s/ Receita Financeira (em 2004 temos de jan a julho)

 

A partir de 1.999, as empresas de previdência privada foram incorporadas ou incorporaram as empresas seguradoras. Com isso as operações que eram distintas passaram a ser registradas num mesmo plano de contas contábil – SUSEP. O demonstrativo operacional continuou separado, mas as contas referentes aos custos administrativos e ao resultado financeiro se mantiveram consolidadas. Portanto a inversão das curvas no gráfico anterior é decorrente da maior participação da previdência privada na formação das provisões técnicas vias a vis as oriundas da atividade de seguros.

 

Dividindo-se o Resultado Financeiro (abstraindo-se do fato que o Patrimônio Líquido gera ganhos financeiros para os acionistas) pelo saldo médio das provisões técnicas, vamos encontrar uma taxa média de remuneração líquida, a qual apresentou o seguinte comportamento:

 

EM % ao ano:

 

Agora temos os efeitos da queda da taxa básica de juros e uma maior pressão das despesas financeiras (atreladas a diversos indexadores – depende do plano). Considerando a atual situação do Automóvel e do Seguro Saúde, este resultado está influenciado pela geração negativa de caixa dessas modalidades.


De fato não podemos sentenciar que o Mercado está deficitário (em algumas empresas essa situação é real). Está na verdade ganhando menos, ou melhor, o spread financeiro que ganhavam no passado diminuiu bastante. Não podem mais se dar ao luxo de práticas predatórias, tapar os olhos para o aumento das fraudes e nem deixar de rever seus preços e tarifas.
 

Considerando que o acionista deveria perceber uma remuneração livre de risco sobre seu capital de giro próprio, a margem financeira da operação praticamente inexiste. Novas políticas deverão ser implementadas visando não depender do dinheiro do acionista para realização ou demonstração de lucros e eficiências operacional e administrativa.

 

Num recente estudo podemos ver que o mercado de maior contingente de pessoas está em franco declínio – o de SEGUROS. As atividades de Previdência Privada e de Capitalização vêm sustentando os Resultados apresentados nos Balanços divulgados nesse último semestre. A primeira por estar registrada em conjunto com a de seguros, já a segunda vem para as seguradoras via Resultado de Coligadas e Controladas.

 

Vamos ver no que vai dar!

 

 

 
Luiz Roberto Castiglione

Membro da ANSP e do Instituto Roncaratti de Seguros.

 

 

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